Espelho, espelho meu

Ao ofertar o pomo de ouro à mais bela, a deusa da Discórdia, Éris, jamais imaginaria que um dia, na era da medicalização, criariam o diagnostico de Depressão Sazonal de verão. Sim, esse transtorno está catalogado e, dentre suas causas, a necessidade de arrasar no biquíni ou no modelo de festa. Na Grécia Antiga, a vaidade era considerada uma hybris ou desequilíbrio, enquanto para nós, rebatizada como autoestima, constitui importante alicerce de nossa saúde mental – parte da cura para a patologia acima descrita.

Na tradição cristã-judaica, segundo Leandro Karnal, temos a “ideia de Lúcifer como primeiro ser da criação que trabalhou o Eu em detrimento de nós”. Um medieval que adentrasse nosso mundo das selfies ficaria certamente aterrorizado e, provavelmente, veria em nossas cultuadas celebridades algo como a “Supervenus”* de Frédéric Doazan. Lá, onde a individuação era de ordem transcendente, para aqueles que confessassem o pecado da soberba, penitências e jejuns seriam aplicados. Paradoxalmente, esses mesmos jejuns e penitências, dolorosos e invasivos processos cirúrgicos, exercícios exaustivos ou shakes que mais parecem nutrição enteral para doentes terminais, são amplamente consumidos pelos que desejam embelezar a si próprios. Porque narciso não precisa de Deus nem de sua lei do padecimento natural do corpo físico.

Jejuns e penitências dolorosos e invasivos processos cirúrgicos, exercícios exaustivos ou shakes que mais parecem nutrição enteral para doentes terminais, são amplamente consumidos pelos que desejam embelezar a si próprios.

Mas da descoberta da subjetividade à formulação do conceito de ego, correram séculos. O processo iniciou-se, segundo Georges Duby, com uma série de costumes, aqui confrontados com seus possíveis respectivos atuais: no uso da dissecação (a medicina cosmética e sua parceria com a indústria farmacêutica), no costume da confissão (a exposição da intimidade nas redes), com a troca simultânea da correspondência privada (a mídia e as fofocas), no uso generalizado do espelho (as famigeradas selfies) e na descoberta da técnica de pintura a óleo (o uso do photoshop ou dos filtros de instagram). Parece que Il Parmigianino e seu gênero de autorretrato com espelhos convexos refletiram muito além dos limites da Arte.

Mas a serviço de quem está esse novo corpo e essa nova consciência? A narrativa de si, independentemente da história e da apologética promovida pelos homens modernos, entra para o mundo da fenomenologia, como em Merleau-Ponty,onde “meu corpo é um objeto que não me deixa”. O espelho e as fotos, que abriram a porta para esse segundo mundo – do real para o virtual –, nos colocou também no mundo dos objetos. Ainda que como espectros, mas nunca à parte.

Mas para que aprisionamos esse corpo-objeto em padrões caros e complicados, e por que projetamos toda nossa felicidade na aparência? A partir da consciência de que não somos nós quem lucramos com isso, então a posição de vítima se desfaz e vestimos a carapuça do auto-algoz. Uma dura pena a se carregar pela beleza.

Ilustração e texto: Marina Magnani
@mari_magnani é artista plástica, apaixonada por plantas e um tanto rebelde com a falta de natureza – e de respeito com ela – nas nossas vidas.

*Supervênus – Frédéric Doazan:

Vitoria Avancini

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Estudante de jornalismo e serelepe por opção, sempre gostou de expressar aquilo que as pessoas sentem em palavras, além de acreditar que tudo está na perspectiva. Em resumo, pisciana!
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