PENSE NISSO: Elas não podem

A censura à nudez feminina, sobretudo ao seio, reforça a diferença de tratamento dada aos corpos. Nesse jogo, a liberdade da mulher é limitada por valores masculinos e o mamilo consiste em um simples objeto do prazer alheio.

Mulheres, uni-vos! Queimem seus sutiãs e marchem juntas! Isso até poderia ser slo­gan de uma nova revolução feminista, mas o fato é que, ainda hoje, mulheres sofrem censura ao mostrar seus corpos, mais especifica­mente seus seios e mamilos, seja nas ruas ou em fotos nas redes sociais. E não se trata de uma censura insta­urada em prol da moral e dos bons costumes, porque aqui, estamos falando de uma censura seletiva. Embo­ra homens e mulheres possuam mamilos, não significa que ambos possam exibi-los livremente.

A censura nas redes sociais é o maior exemplo de como tudo funciona: em seus termos de uso, o In­stagram proíbe claramente qualquer tipo de nudez. Entretanto, sempre nos deparamos com corpos mas­culinos superexpostos que recebem centenas dos tão desejados corações e passam incólumes, enquanto isso, ao menor sinal de um seio feminino, contas são bloqu­eadas ou alvo de denúncias. A política foi justificada em pronunciamentos anteriores pela submissão do Instagram aos termos da Apple para disponibilização de apps em sua store. Já o Facebook restringe imagens de nudez pela sensibilidade dos membros de sua “co­munidade global”, que possuem diferentes idades e bagagens culturais. A única ressalva a aparição dos seios femininos, segundo os termos, é no caso de “mulheres ativamente engajadas na importância da amamentação ou mostrando os seios após uma mastectomia (cirurgia de remoção total ou parcial das mamas no tratamen­to do câncer) ”. A censura da nudez feminina, prin­cipalmente no caso do Facebook, está ligada a uma parte específica do corpo, o mamilo, explicitamente proibido. Acima de qualquer termo em qualquer rede, corpos masculinos continuam a fazer suas aparições, o que apenas reforça a diferença de tratamento dada à exposição em relação ao corpo feminino, fruto de sua erotização e objetificação em uma sociedade extreman­te presa a valores machistas.

Qualquer corpo é algo simbólico e o corpo femini­no ao longo da história do homem recebeu diferentes significações. Isso pode ser notado claramente pela for­ma como foi retratado ao longo da história da arte. As Vênus de seios fartos eram símbolo da fertilidade e até mesmo as Madonas do renascimento ainda apareciam com seus seios de fora para representar valores cristãos e maternos. Hoje, o significado que persiste é o eróti­co: o seio aparece como objeto sexual, que tem em sua aparição a única e exclusiva função de despertar e sa­tisfazer o desejo masculino. Dessa forma, mulheres têm o direito de liberdade restringido por uma construção machista imposta ao logo do tempo. No cenário em que vivemos, o direito da mulher mostrar seu próprio corpo, sobre o qual deveria ter total autonomia, ainda significa lutar e ir contra convenções. “Alguns grupos tentam combater essa visão do corpo feminino como objeto sexual e mostrar a nudez como símbolo de li­berdade. Mas ainda é uma luta, uma militância. (…)”, diz Mirian Goldenberg, antropóloga que tem a relação da sociedade e o corpo como uma de suas principais áreas de estudo.

#MAMILOSLIVRES

ACREDITO QUE O SEIO DA MULHER É USADO COMO SÍMBOLO DO FEMININO E, EM U MA SOCIEDADE PATRIARCAL, MACHISTA ONDE O HOMEM PRECISA TER O CONTROLE SOBRE A MULHER, NADA MAIS SIMBÓLICO QUE CONTROLAR, CENSURAR, MODIFICAR E MOLDAR O SÍMBOLO DO FEMININO AO PRAZER DO HOMEM.” Julia Rodrigues, fotógrafa e uma das idealizadoras do #MamiloLivre.

Karina Buhr - Selvática Vários já foram os episódios de restrição ao seio fe­minino, até mesmo quando falamos de amamentação. Em 2014, uma mãe sofreu repreensão por amamentar sua filha no MIS (Museu da Imagem e do Som), o que levou outras mães a organizarem um “mamaço”. Em 2015, a cantora Karina Buhr também teve a divulgação de seu álbum “Selvática” censurada pelo Facebook. O motivo: a capa trazia Karina com os seios de fora.

EllusO mundo da moda também se manifesta. É quase comum ver seios parcial ou totalmente expostos des­filando nas passarelas. No último desfile da Ellus no SPFW, a modelo Rebecca Gobbi desfilou a mesma roupa que Filipe Hilmann, sem a parte de cima. Re­becca publicou uma foto do desfile no Instagram que, horas depois, foi deletada. A foto foi repostada com a frase Free the nipples cobrindo seus seios com a legenda “(…) Pela primeira vez eu tive mais de 2666 likes em uma foto e 100 comentários. E ela foi deletada. Isso é pra ver que os direitos da mulher não são os mes­mos do que os dos homens. Pois o meu amigo atrás está tbm sem camisa, mas por eu ser mulher e mostrar um mamilo, fui deletada.(…)”. Free the nipples, aliás, é o nome do movimento criado por Lina Esco nos Estados Unidos e que hoje tem grande proporção com adesão de celebridades e um filme no qual as persona­gens lutam pelo direito de fazer topless na cidade de Nova York, história contada como forma de abordar a liberdade feminina e a restrição de direitos.

Free the nipples
Aqui no Brasil, a voz do movimento por libertação vem do projeto Mamilo Livre, idealizado por Julia Ro­drigues e Letícia Bahia. “Como fotografa, já tive muitas vezes meu perfil bloqueado e censurado por conta de imagens onde o mamilo femi­nino aparecia, sendo que muitas delas nem pegada sensual tinha.”, conta Julia que, ainda em 2014, resolveu foto­grafar um projeto cha­mado #podenãopode. A ideia era postar nas redes sociais fotos do torso nu de homens e mulheres e observar a diferenciação de gêneros quanto à censura no Facebook. Letícia, que é psicóloga e tinha um blog onde abordava questões feministas, juntou o seu trabalho ao da fotógrafa em 2015. Nas­cia assim o Mamilo livre, que também saiu das redes sociais e ocupou as ruas com lambe-lambes com fo­tos e a hashtag do projeto. No site mamilolivre.com é possível ler um manifesto que sintetiza as ideias do projeto e fazer seu próprio lambe-lambe para colar por aí. Outra ação recente foi burlar o robô da censura no Facebook postando um álbum que criava um seio fe­minino em forma de mosaico. “Acredito que o seio da mulher é usado como símbolo do feminino e, em uma sociedade patriarcal, machista onde o homem preci­sa ter o controle sobre a mulher, nada mais simbólico que contro­lar, censurar, modificar e moldar o símbolo do feminino ao prazer do homem.” , afirma Julia ao relacionar a censura à erotização da mulher. Mesmo com algumas críticas e a falta de profundidade em tratar do assunto, o projeto tem seus avanços. O que deve ser ressaltado é que não se impõe um padrão de comportamento a todas, mas que a liberdade e o direito sobre o próprio corpo de­vem ser respeitados.

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