TPM nível hard

Embora pouco conhecido, o transtorno disfórico pré-menstrual é uma patologia que interfere profundamente — e negativamente — na vida de até 8% das mulheres ao redor do mundo.

POR Fabiana Nascimento FOTOS IStock, Reprodução Facebook.

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Quem nunca se sentiu irritada ou dolorida “naqueles dias”? A maioria das mulheres tem algum tipo de sintoma causado pela tensão pré-menstrual, a famosa TPM. São sinais físicos como enxaqueca, inchaço abdominal, alteração do funcionamento intestinal, dor lombar e nas mamas, bem como emocionais que incluem a irritabilidade e a ansiedade por exemplo. E se já é difícil enfrentar estes sintomas habituais, imagina uma versão turbinada deles? A TPM comum é um quadro que apresenta sintomas leves, enquanto o transtorno disfórico pré-menstrual, também batizado de TDPM, é uma patologia descrita entre as doenças psiquiátricas que interfere de maneira severa na vida, no trabalho e nas relações da mulher.

Segundo dados da BBC Brasil, a síndrome acomete de 5 a 8% das mulheres no período reprodutivo e caracteriza-se como um distúrbio de sintomas intensos, como irritabilidade excessiva, ansiedade e depressão. “É menos comum, mas é muito mais severo”, explica a endocrinologista Alessandra Rascovski.

Uma das vítimas do transtorno é a estudante de gastronomia Jéssica Barra, de 25 anos, que descobriu o TDPM quatro anos atrás. “Eu sempre tive uma menstruação normal, tinha todos os sintomas da TPM, mas não era nada agressivo. Depois comecei a perceber que o mal-estar parecia estar aumentando gradativamente a cada menstruação, principalmente o cansaço, a irritabilidade e a ansiedade, que por muitas vezes me deixavam triste e sem vontade de fazer nada”, conta à Be. “Já fui agressiva com pessoas que amo por conta da irritabilidade excessiva que o TDPM causa. Assim que a raiva explodia, eu sempre acabava tendo que pedir desculpas depois. Isso me deixava muito mal, mas era algo que eu não conseguia controlar”, desabafa.

Jéssica Barra, portadora de TDPM, acredita que o transtorno não é suficientemente debatido e por isso sofre preconceito. "As pessoas não têm conhecimento sobre a doença e acham que é simples passar por cima dos sintomas como se fosse uma tosse ou um corte no dedo. Muitas vezes elas não têm empatia, principalmente do ponto de vista psicológico”, comenta a estudante.
Jéssica Barra, portadora de TDPM, acredita que o transtorno não é suficientemente debatido e por isso sofre preconceito. “As pessoas não têm conhecimento sobre a doença e acham que é simples passar por cima dos sintomas como se fosse uma tosse ou um corte no dedo. Muitas vezes elas não têm empatia, principalmente do ponto de vista psicológico”, comenta a estudante.

 

De acordo com a endocrinologista Alessandra, esses sintomas ocorrem porque durante o ciclo menstrual, os hormônios femininos envolvidos, estrogênio e progesterona, oscilam muito. A partir da menstruação, o nível do estrogênio começa a crescer e chega ao seu máximo, fase em que ocorre a ovulação. Depois, o nível desse hormônio cai e a mulher começa a produzir progesterona. Essa queda gradativa do estrogênio é que provoca os sintomas típicos da TPM, pois modifica também os níveis de neurotransmissores importantes como a serotonina, responsável pela regulação do sono e sensação de bem-estar.

Além disso, esse período pode manifestar sintomas por até três semanas durante o mês. Por isso quem sofre com o transtorno tem problemas sérios que interferem nas atividades aparentemente simples da vida cotidiana. “Algumas mulheres se queixam que passam duas semanas no pré-menstrual e apenas duas semanas passando bem. Considerando que nestas últimas ela teve o período de sangramento, a mulher tem somente uma semana do mês em seu estado normal”, diz a endocrinologista.

Como saber se tenho TDPM?

O teste abaixo, elaborado pelo Programa de Estudos em Sexualidade da Universidade de São Paulo (USP) e Associação Psiquiatra Americana, pode te ajudar a identificar se é portadora da síndrome.

TPM-TESTE

OPS! Essa sou eu! E agora?

Quando uma mulher desconfia que possui TDPM pode conversar com um clínico geral ou com seu próprio ginecologista. “Se o quadro for muito grave pode ser considerado um transtorno de psiquiatria, sendo devidamente encaminhado a um psiquiatra”, diz Alessandra. Mas se você é muito afetada pelos sintomas do ciclo pré-menstrual, não desista de procurar ajuda, pois o diagnóstico quase sempre é complicado. “Eu tive uma paciente que ouvia vozes somente antes de menstruar. Por causa dessas alucinações auditivas, pedi uma avaliação ao psiquiatra e ele disse para tratar como TPM, pois ela não tinha nenhuma doença psiquiátrica, então é muito confuso”, confessa a doutora.

Foi o que aconteceu também com a Jéssica que, quando começou a pesquisar sobre o assunto, recebeu várias cogitações, mas nenhum diagnóstico correto. “Passei por várias ginecologistas que nem sabiam o que era a doença, até ser atendida por uma que tinha maior conhecimento sobre TDPM e me diagnosticou”, lembra. Desde então, Jessica faz um tratamento que inclui medicação específica para o aumento da serotonina, dieta livre de gorduras e cafeína, principalmente nos dias que antecedem a menstruação e, com muito esforço, exercícios físicos. Porque para ela, uma simples caminhada pode parecer impossível. “Eu sei que ajuda muito na melhora, mas é difícil. As dores no corpo aparecem, às vezes, até duas semanas antes da menstruação, por isso quase não aguento fazer esforço físico. Já tentei acupuntura também, mas pelo menos para mim, não fez muito efeito”, relata Jéssica.

Outra forma de tratamento bastante utilizada são as pílulas anticoncepcionais que inibem a alteração hormonal ou os chips hormonais, palitinhos de silicone que liberam hormônios e podem ser implantados em partes específicas do corpo, deixando a paciente muito estável do ponto de vista hormonal, minimizando assim os efeitos da TPM. A histerectomia total, cirurgia de remoção do útero e ovários, apesar de mais radical, também é uma forma de controle a longo e médio prazo.

Tanto a TPM quanto o TDPM, que passou a ser estudado há menos de 20 anos, são consideradas doenças da vida moderna. “Antigamente as mulheres ficavam grávidas mais tempo na vida e como durante a gestação e, depois, na amamentação não existe flutuação de hormônio, a mulher tem uma estabilidade hormonal muito maior e menos tendência aos sintomas de TPM. Hoje em dia as mulheres demoram cada vez mais para ter filhos e por isso têm mais ciclos menstruais”, explica Alessandra Rascovski.

Por outro lado, cientistas do Instituto Nacional da Saúde Mental (NIH, sigla em inglês), nos Estados Unidos, divulgaram no início deste ano, estudos que comprovam que a causa do distúrbio está no código genético das pacientes. De acordo com os pesquisadores, uma mutação genética que deixa as células cerebrais desordenadas, pode explicar por que essas mulheres são tão sensíveis às mudanças hormonais.  A endocrinologista comemora os avanços nos estudos desse complexo genético, pois assim é possível aprimorar os tratamentos e trazer qualidade de vida às mulheres afetadas pelo transtorno disfórico pré-menstrual.

 

Fabiana Nascimento

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Chocolover, amante da natureza e da música. Escrever me traz liberdade.
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