Do líquido ao sólido: a importância do limite na construção da família.

Em tempos líquidos onde nada é feito para durar, como diria Zygmunt Bauman, nos deparamos com uma série de conflitos e dificuldades vividas por pais que não conseguem estabelecer vínculos saudáveis com seus filhos na relação familiar. Diante de tanta liquidez observamos no cotidiano mães e pais com comportamentos pouco tradicionais.

Nos meios de comunicação e nas redes sociais estamos vendo histórias que nos fazem perguntar que “mundo é esse? ” e respondemos: o mundo das dúvidas, das dificuldades com os limites, das normas que hoje não funcionam mais, como por exemplo em falas o que meus pais fizeram comigo não serve com meus filhos ou se meus filhos querem eu tenho que dar porque senão quem sou eu?

Em busca de suprir os desejos e não as necessidades das crianças vemos pessoas adultas brigando com outros adultos porque seus filhos querem sorvete, suco ou que justificam um roubo porque os filhos querem o tênis X, Y ou Z. Em todos esses comportamentos existe uma falta de controle e limite, gerando nova pergunta: se nem os pais tem limites como eles podem dar limites aos seus filhos?

Limite tem por significado no Dicionário Online de Português: (substantivo masculino) Fronteira; linha que, real ou imaginária, delimita e separa um território de outro. Como se pode ver limite é uma linha que separa o real do imaginário, ou seja, o aspecto emocional dos pais, seus desejos e dificuldades terá um impacto muito grande sobre o cotidiano com os filhos e sua relação com o limite.

Alguns pais estão ultrapassando o limite quando pedem para seus filhos a comida da boca de estranhos, brinquedos para outras crianças acreditando que os seus filhos têm “direito” sobre produtos das lojas ou da casa dos outros. Essas situações parecem expressar a falta de amadurecimento dos pais para lidar com a dificuldade de educar um filho, de lidar com seus próprios limites e com uma vontade de agradar sempre.

Quando uma criança encontra pais sem limite ela se sente insegura, infeliz e isso tende a gerar comportamentos agressivos e desestruturados. Com esse comportamento a criança agride os pais que se sentem impotentes afinal deram tudo e a criança continua infeliz. Talvez essa infelicidade seja reflexo da culpa que os pais sentem por não ficarem junto com os filhos, brincando, fazendo lição de casa ou estudando para a prova, jogando o tempo fora ou quem sabe se divertindo num parque numa manhã de domingo.

A necessidade de uma criança para que ela possa crescer segura e confiante em si mesma é viver na companhia de adultos emocionalmente resolvidos e que sabem que educar e formar um filho exige sacrifício, determinação e, principalmente, um amor que tem por finalidade ajudar essa criança a se desenvolver com as tarefas de cada fase da vida, tais como lidar com a frustração e as dificuldades de conquista que acompanham a vida inteira de todos nós.

O limite é um facilitador desse processo. Quando a criança encontra pais que dizem “eu só posso te dar um presente, portanto escolha”, eles estão dizendo que a vida é feita de escolhas e essas têm consequências, além de saber que a vida nunca nos dará tudo. Se eu comprar todos os presentes roubo de meu filho essa oportunidade de aprendizagem. Quando eu tenho fé e convicção que se eu não der tudo que a criança quer ela ficará doente eu vou ensinando meu filho que ele pode manipular a realidade fugindo das frustrações e “brigando” e não “buscando” o que quer. Brigar aqui tem uma conotação negativa, fugir do que preciso e machucar quem ultrapassar o caminho. Isso cria na criança condições para desenvolver o egoísmo e não cria a necessidade de superar as barreiras da vida. Cito uma última armadilha que é a certeza que vemos em alguns pais ao dizer que quem não faz a vontade de seu filho é egoísta ou tem problemas. Isso pode gerar na criança uma ilusão que basta querer para ter e a vida é bem diferente disso.

Para que os pais possam aprender a lidar com os limites é fundamental que estejam dispostos a pensar sobre as necessidades das crianças e atuar sobre elas, ou seja, dialogar, fazer uma refeição junto ou assistir um programa de televisão, o que ensinará a criança a dar e receber; ceder, perder ou ganhar, construindo uma relação aberta e construtiva com a vida, além de desenvolver um espaço para discutir o que eu sinto e penso sobre a vida.

É importante que a criança saiba que ela pode querer, mas para ter é necessário esforço, amadurecimento e, muita paciência para aprender a lidar com o tempo e seus obstáculos. Por isso, pode-se dizer que o limite é fundamental para o crescimento das pessoas, já que o teremos durante toda a vida, e é ele quem pode transformar o liquido em sólido.

autora: Dra. Ana Laura Schliemann 

Vitoria Avancini

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Aspirante a jornalista e serelepe por opção, a palavra sempre foi minha matéria prima.Em meus textos, singelas observações de um universo cósmico e inspirador, além de perspectivas a respeito do que as pessoas sentem. Deixar fluir a imaginação e buscar o grande trabalho da empatia para que a linguagem ganhe novos contornos é a meta.
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