Erasmo Carlos como você nunca leu

Com apresentação marcada para o próximo sábado (09) em Sorocaba, o Tremendão relembra a Jovem Guarda, fala sobre moda e feminismo. Além dos projetos, de livro de poesias a filme autobiográfico, e show: “Vai ser uma festa!” POR Fabiana Nascimento FOTO César Ovalle

Como se manter atual mesmo com o passar do tempo. Qual é o segredo?

Erasmo: Eu não sei. Deve ser porque procuro me informar sobre tudo o que posso. Gosto de ler, leio muito. E o amor, né? O amor mantém a gente jovem pra sempre.

O primeiro contato entre você e Roberto foi por causa da música Hound Dog, de Elvis Presley, do qual vocês eram muito fãs. Quais as suas lembranças desse dia?

Erasmo: O Roberto queria a letra da música do Elvis então nós fomos apresentados por um amigo em comum, Jorge Ben, que sabia que eu tinha essa letra, eu dei a letra pra ele e pronto, aí ficamos amigos a partir desse dia. Eu recortei a letra da música na revista. As letras saíam em revistas e as fotos também. Eu recortava e guardava as coisas do Elvis e tenho até hoje. Álbuns com fotos e letras coladinhas juntas, coisa de fã mesmo. Mas isso foi no início, eu gostava daquele Elvis rebelde vestido de couro, de Memphis, Tennessee, que cantava com banda pequena de country, bravo, bonito, canções inesquecíveis. É desse Elvis que eu gosto.

Você e a Jovem Guarda foram uns dos percursores do rock nacional. E você conta que era de ouvir rock nas rádios internacionais que se interessou pelo ritmo. Qual é a diferença do rock internacional e nacional?

Erasmo: O simples fato de ser em português era a principal diferença. No começo eu fazia versões das canções americanas. Só depois comecei a compor, daí vieram as canções que falavam de amor e dos assuntos do Brasil. Naquela época eu falava da minha realidade que eram carrões, mulheres, festas e as pessoas gostavam.

Como era compor na época da ditadura?

Erasmo: Era terrível fazer uma coisa que você não podia ouvir, né? Que dependia de censura e até do estado de espírito da pessoa que iria censurar, ainda tinha mais essa! Se ela estivesse de bem com a vida dele, chegava feliz no trabalho e aceitava tudo quanto era música que chegasse! Mas se estivesse dormindo mal, chegava e vetava tudo. Isso era muito triste. Hoje é legal que eu possa mostrar essas músicas no projeto Meus Lados B. Antes tarde do que nunca, né?

Vocês com certeza lançaram moda na época da jovem guarda. Qual é sua relação com a moda?

Erasmo: Eu brincava bastante com isso, sabe? Eu vestia roupas que eu sempre quis vestir, que povoavam o meu imaginário. De repente eu via a roupa de um gladiador romano então eu fazia essa roupa pra eu usar. Daqui a pouco eu via um casaco da época de Luís XV, eu fazia este casaco e vestia. Pegava calças e usava uma perna de uma cor e outra de outra. Eu fazia essas experiências, era muito divertido e ainda por cima lançava moda. A moda pra mim é isso, não tem limites de criatividade. Você faz a coisa pra ser ousada. A moda tem que ser ousada. Eu tenho ódio da mesmice da moda brasileira atual, principalmente masculina.  Na Jovem Guarda o que a gente tinha de criatividade de roupas, de estilos e cores era uma coisa muito ampla. Mas isso infelizmente não ficou de exemplo. Hoje eu só uso meu jeans e minha jaqueta de couro, é meu uniforme. Essa é minha roupa de super-herói. O homem de ferro não tem a armadura dele? A minha é meu jeans e meu blusão de couro.

O que você gostaria de dizer para os fãs sobre o show que você está trazendo para Sorocaba, Gigante Gentil?

Erasmo: O projeto partiu da composição da canção Gigante Gentil. Começaram a criticar os artistas mais velhos na internet, fazer piada com nossas idades e eu fiz a música em resposta a isso. Uma resposta educada e charmosa, mas uma resposta. No fundo foi bom, eu até ganhei um Grammy Latino por causa dessa música. Vai ser uma festa!

Você gosta muito de escrever e continua muito criativo, compondo e fazendo até poesia. Tem projetos para lançar um livro de poesias?

Erasmo: Já está pronto. Só de poesias, deve ter umas 111, ainda não tem título, mas pretendemos lança-lo em breve. Eu fui fazendo, fazendo, escrevendo aí eu pensei: dá  pra fazer um livro.

Poderia falar um pouco sobre o livro Minha Fama De Mau e sobre o filme que leva o mesmo título e conta sua história de vida?

Erasmo: O filme vai estrear agora em fevereiro de 2018. Não participei de nada, só escrevi o livro, o filme é todo baseado no livro. Também estou curioso pra saber o que tem no filme.  A direção é de Lui Farias e eu vou assisti-lo junto com vocês no dia da estreia. A gente nunca sabe o que se passa na cabeça de um diretor, né? (Risos)

Você já comentou que acha o rock da época do jovem guarda muito machista. Como você lida com isso atualmente?

Erasmo: Eu faço o que eu sinto. Na época eu também escrevia o que sentia. Concordo que era realmente machista. Eu venho de um conceito machista patriarcal, da geração dos anos 40, da época de cowboy, gangster, violência. Eu sou dessa cultura. Então era natural que existisse nas minhas músicas, mesmo com letras inocentes, um certo machismo. Não só da minha parte como de toda a geração. O rock em si é machista, quase não se vê mulheres em bandas de rock. Mas isso está mudando, a sociedade está caminhando, dando uma abertura maior e merecida para as mulheres.

O que você gosta de ouvir hoje em dia?

Erasmo: Eu ainda gosto de ouvir as coisas antigas. Gosto de ouvir bossa nova, rock básico, coisas que me trazem paz e fazem ficar de bem comigo mesmo. Eu ouço as atuais por informação. Qualquer música me interessa, porque eu sou músico. Música é minha vida. Música bate no meu coração. Depois do orgasmo é a coisa mais linda que existe na face da Terra. Eu não vivo sem música, mas prefiro as antigas. Hoje em dia é muita gente, a cada cinco minutos tem uma novidade e eu não tenho tempo pra assimilar tudo isso. As coisas são muito rápidas, o dia ficou pequeno pra gente viver.

Você que já viveu muita coisa, participou da Jovem Guarda que era um símbolo da juventude da época, poderia deixar uma mensagem para os jovens de hoje que vivem neste país caótico?

Erasmo: Eu tenho um pensamento pra juventude: não se mirarem em nenhum exemplo do passado. Devem construir sua própria política, ideias novas com pensamentos bons. Sem esses vícios de corrupção, de falcatrua e maracutaia, de levar vantagem em tudo e querer passar o semelhante pra trás. Tem que ter amor, muito amor naquilo que faz. Política deve ser um ato de amor, por que você lida com o bem-estar das pessoas que dependem, que confiam em você e é uma sacanagem decepcionar essas pessoas que confiam em você. Não tenho classificação pra esse tipo de ser humano que rouba o dinheiro do trabalhador, das pessoas honestas. Minha revolta é a mesma que a sua.

Fabiana Nascimento

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Chocolover amante da natureza e da música. Escrever me traz liberdade.
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