Não é ser trans, é ser humano

No país onde mais se mata transexuais no mundo, abordar o tema na novela do horário nobre é um grande avanço digno de Glória Perez. POR Fabiana Nascimento FOTO Divulgação/TV Globo

A Força do Querer tem dado à Globo uma audiência que a emissora não registrava havia tempo na faixa das nove. E não é difícil entender o motivo. Além do triângulo amoroso formado pelos protagonistas Ritinha (Isis Valverde), Zeca (Marcos Pigossi) e Jeiza (Paolla Oliveira), relegada ao segundo plano, existe uma grande trama que corre em paralelo e aquece os capítulos a cada noite: a descoberta da transexualidade por Ivana (Carol Duarte), um dos assuntos de maior destaque na mídia nos últimos meses. Uma coisa é fato: as novelas de Glória Perez são sinônimo de polêmica. Talvez seja esse um dos principais trunfos da autora: tratar de situações que nos deixam em dúvida sobre o que é moralmente aceitável e o que não é. Ainda assim, a escritora sempre traz temas que geram visibilidade para certas questões, como a identidade de gênero representada por Ivana, que acaba de se descobrir um homem trans gay.

A história de Ivana confunde muita gente. Ela nasceu mulher, não se sente bem e repudia sua figura feminina, gosta de usar roupas tipicamente masculinas, mas continua sentindo atração sexual por um homem. Ivana percebe que não se identifica com o corpo em que nasceu, mas seu sentimento pelo namorado Cláudio (Gabriel Stauffer) não muda, o que mostra que ela está mudando de gênero e não de sexualidade, que são coisas diferentes.

A arte imita a vida

Glória Perez conta que se inspirou no ator Tarso Brant para criar a personagem Ivana. Tarso, que nasceu Tereza, fez uma participação especial na novela onde ajudava Ivana a entender melhor o que estava sentindo. O universo retratado na novela global representa aproximadamente 1,3% da população atual do planeta. Apesar do crescimento gradativo da população trans, muitos ainda desconhecem e desrespeitam essas pessoas. A transgeneridade diz respeito à identidade e a expressão de gênero autopercepida. Transexuais e travestis são transgêneros que fazem a transição de gênero com ou sem cirurgia de readequação genital. A diferença entre eles está na diferenciação social de valores, já que as travestis, mulheres trans, são marginalizadas pela sociedade a acabam vendo a prostituição como a única saída. As Drag Queens são homens que gostam de se montar como mulher em determinadas ocasiões. Elas quase sempre são gays e quase nunca querem ser mulheres em tempo integral. Todos eles fazem parte do leque da transgeneridade.

Mais uma polêmica para Trump

Em julho deste ano, Donald Trump disse, no Twitter, que o governo americano não vai permitir que transgêneros prestem serviço militar. O presidente dos EUA alegou que militares devem se concentrar em vitórias decisivas e extraordinárias, e não podem se preocupar com os tremendos custos médicos e transtornos que seriam causados por transgêneros entre os militares. É válido lembrar que durante todo o mandato de Barack Obama, transgêneros eram aceitos no exército sem nenhuma distinção o que nos faz cogitar um infeliz retrocesso. Consequentemente, Marc Jacobs, Caitlyn Jenner e uma série de outras personalidades se posicionaram nas redes sociais quanto a afirmação de Trump. Além disso, uma imagem com dizeres em inglês que, traduzidos para o português, gritam “Os direitos trans são direitos humanos”, viralizou nos feeds ao redor do mundo após o anúncio do republicano.

Ninguém quer ser estatística

Aqui no Brasil a realidade é ainda pior. Fomos recentemente classificados como o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, segundo dados publicados pela ONG TransgenderEurope (TGEu) em novembro do ano passado. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida dos transgêneros é de 35 anos, menos da metade da média nacional, que é de 75. Somente neste ano, o monitoramento da Rede Nacional de Pessoas Trans do Brasil (Rede Trans Brasil), aponta que mais de 100 travestis e transexuais foram assassinados no país.

Por isso qualquer avanço como a personagem Ivana, de A Força do Querer, é uma boa oportunidade para mostrar para à sociedade que a diversidade existe. A Instrução Normativa, divulgada pela Receita Federal em julho deste ano, que concede aos travestis e transexuais o direito à inclusão do nome social no CPF, também é um sinal de que, embora atrasados, começamos a dar os primeiros passos rumo ao caminho do respeito e do tão pregado amor ao próximo.

As polêmicas com “um quê” de Glória Perez.

Evento de Lançamento - Estudio Especial - Gloria PErez

1987 – CARMEM
A primeira novela escrita inteiramente por Glória, exibida na extinta TV Manchete, trazia, em 1987, temas como o feminismo e religiosidade, ao mostrar a personagem principal, interpretada por Lucélia Santos, fazer um pacto de sangue com uma pomba-gira, oferecendo sua alma em troca para se vingar do homem que amava.

1990 – BARRIGA DE ALUGUEL
Pra quem acha que barriga de aluguel é coisa de Kardashian, nem imagina que Glória Perez jogava o tema na roda 27 anos atrás. A trama principal girava em torno de Zeca (Victor Fasano) e Ana (Cássia Kis), um casal que, depois de muitas tentativas sem sucesso de ter um filho, decide contratar uma barriga de aluguel, a jovem Clara (Cláudia Abreu), moça pobre que aceita 30 mil dólares para carregar o bebê do casal. A polêmica vem, porém, quando Clara resolve ficar com a criança, gerando diversos conflitos morais e legais em torno da barriga de aluguel.

1992 – DE CORPO E ALMA
Em 1992 a história marcante foi a de um transplante de coração. A trama principal envolve Diogo (Tarcísio Meira), que se apaixona por Betina. Essa morre logo no começo do folhetim, e seu coração é transplantado em Paloma (Cristiane Oliveira). O tema da doação de órgãos foi tão marcante que, na época, o INCOR (instituto do Coração) em São Paulo recebeu nove órgãos para transplante somente na semana de estreia da novela.

1995 – EXPLODE CORAÇÃO
O hábito da autora de incluir culturas, tribos e religiões diferentes em suas novelas se fez valer na novela que estreou em 1995. Boa parte do elenco interpretava ciganos. A novela ainda fez uso da internet para apresentar um de seus casais principais, a cigana Dara (Tereza Seiblitz) e do executivo Júlio (Edson Celulari). A ferramenta, hoje tão comum, ainda não tinha muitos adeptos no país, e os telespectadores ficaram surpresos, já que uma relação cibernética parecia quase impossível na época.  Em seu blog, a autora garante que de todos os seus trabalhos, esse foi com certeza o mais polêmico e o que me rendeu mais críticas já que, mesmo sem cogitar, anteviu o Skype e o TouchScreen.

2001 – O CLONE
Em 2001 foi ao ar uma das novelas de maior sucesso da autora na qual a cultura árabe, clonagem humana e dependência química deram o tom da trama, que misturou tradição e modernidade para relatar uma história de amor.

2005 – AMÉRICA
2005 foi o ano de Glória trocar o Marrocos pelos EUA. A novela conta a história de Sol (DéborahSecco), que sonha em viver no país norte-americano em busca de melhores oportunidades e decide entrar nos EUA ilegalmente. Recheada de polêmicas, a novela também mostrava a personagem cleptomaníaca Haydée (Cristiane Torloni), além do assunto mais comentado que foi a relação entre o jovem fazendeiro Júnior (Bruno Gagliasso) e o Peão Zeca (Erom Cordeiro). Em um ambiente extremamente machista e preconceituoso, eles sofreram para assumir seu amor. No final da novela, deveria acontecer o primeiro beijo gay da dramaturgia, mas a cena foi vetada.

2009 – CAMINHO DAS ÍNDIAS
A cultura indiana, o sistema de castas ainda adotado nas partes mais periféricas do país, e o amor impossível foram os assuntos abordados. A trama sofreu uma grande virada já que, inicialmente, o casal principal deveria ser formado por Maya (Juliana Paes) e Bahuan (Marcio Garcia). Porém, a história de amor fica por conta de Maya e Raj (Rodrigo Lombardi). Além da exploração da cultura indiana, teve como destaque a história de Tarso (Bruno Gagliasso), que sofre de esquizofrenia.

2012 – SALVE JORGE
A novela se dividia entre Rio de Janeiro e Capadócia, na Turquia, e mostrou um dos temas mais polêmicos das novelas até hoje: tráfico de pessoas. Morena (Nanda Costa) é uma das muitas jovens levadas para fora com a promessa de trabalho, somente para acabarem escravizadas e prostituídas. Tentando desmascarar a quadrilha envolvida nesses crimes e que tem como chefe Lívia (Cláudia Raia) está a delegada Helô (Giovanna Antonelli).

Fabiana Nascimento

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Chocolover, amante da natureza e da música. Escrever me traz liberdade.
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