Assédio sexual: é hora de lutar e reafirmar que assediadores não passarão!

O assédio sexual é uma triste situação que, desde que o mundo é mundo, é corriqueira. Casos recentes envolvendo famosos fizeram com que o tema chegasse aos holofotes e finalmente recebesse a atenção merecida, tanto pela violência do ato em si quanto pela gravidade dos traumas gerados à vítima. Por Isabelle Francine Fotos Reprodução

Caso José Mayer

No fim de março deste ano, a figurinista Su Tonani, depois de uma sequência de denúncias ao RH da emissora Globo que não surtiram nenhuma proteção a ela, relatou no blog #agoraéquesãoelas, do jornal Folha de São Paulo, os assédios sexuais praticados pelo ator José Mayer.

Através de uma carta aberta, Mayer assumiu o erro e pediu desculpas publicamente. Infelizmente, apesar de sua retratação, é Su que sofrerá o peso de ter se calado por tanto tempo, por ter sido educada quando ele não foi, por não ter gritado a verdade apenas porque aquele era seu ambiente de trabalho. É a vítima que terá que se lembrar, todos os dias, que a culpa não é dela.

Su Tonani.  (foto: divulgação, créditos: Miguel Sá)
Su Tonani.
(foto: divulgação, créditos: Miguel Sá)

Movimento #mexeucomumamexeucomtodas

Em solidariedade à figurinista Su Tonani, no dia 4 de abril atrizes e funcionárias da Rede Globo – como Camila Pitanga, Sophie Charlotte, Taís Araújo, Débora Nascimento, Bruna Marquezine e Tainá Müller, entre outras – se uniram através da hashtag #chegadeassédio e, vestindo camisetas com a frase “Mexeu com uma mexeu com todas”, postaram simultaneamente fotos no Instagram.

Cissa Guimarães e funcionárias da Rede Globo. (foto: Reprodução/Instagram @cissaguimaraes)
Cissa Guimarães e funcionárias da Rede Globo.
(foto: Reprodução/Instagram @cissaguimaraes)

As legendas, solidárias à Su Tonani, apresentaram posições contrárias ao assédio sexual, bem como apoio à vítima e repúdio a quem quer que cause esse tipo de sofrimento a uma mulher. Ao longo desse dia outras mulheres se uniram ao movimento, numa manifestação linda de funcionárias ou não da Globo, para mostrar que assediadores não passarão.

A figurinista assediada reforça, ao fim de seu texto publicado no #agoraéquesãoelas, que não sentirá mais medo e que sua voz não será calada. “(…) Que entendam que é abusivo, é antigo, não é brincadeira, é coronelismo, é machismo, é errado. É crime. Entendam que não irei me calar e me afastar por medo. Digo isso a ele e a todos e todas que, como ele, homem ou mulher, pensem diferente. Que entendam que não passarão. E que o meu assédio não vai ser embrulho de peixe. Vai é embrulhar o estômago de todos vocês por muito, muito tempo”, escreveu.

Harvey Weinstein – Assédios sexuais em Hollywood

Não é só aqui no Brasil que a coisa tá feia. Harvey Weinstein é um homem mais que importante no universo do cinema. É considerado, junto a seu irmão, um dos responsáveis por abrir o mercado americano para filmes independentes. Em 2012, chegou a ser considerado pela “Time” como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo.

Mas os feitos de Weinstein passaram rapidamente de uma maré boa para outra extremamente ruim, o que fez seu barco naufragar após um número incrivelmente grande e assustador de denúncias de assédios sexuais e estupros de celebridades – Ashley Judd, Gwyneth Paltrow, Angelina Jolie, Kate Winslet, Meryl Streep, Rose McGowan, Lena Dunham, Jennifer Lawrence, Hillary Clinton, Judi Dench, Jessica Chastain, Julianne Moore – que foram encobertos por muito tempo por uma areia suja de mentiras e ameaças.

Por que as mulheres demoraram tanto para fazer as denúncias?

Angelina Jolie diz ter sido assediada por Harvey Weinstein durante a divulgação do filme “Corações Apaixonados”, em 1999. A pergunta que você deve estar se fazendo, e nós também, é: por que ela demorou tanto tempo para contar a todos o que houve?

A psicóloga e professora Ariane Toubia explica que “a mente da vítima de um assédio ou estupro passa por um turbilhão de pensamentos, além de experimentar diferentes sentimentos após o ocorrido. Essas pessoas podem sentir raiva, medo, vergonha, angústia, culpa, ansiedade, tristeza e absorver o trauma de diferentes formas de acordo com suas crenças e valores pessoais e, inclusive, podem acreditar que, de algum modo, colaboraram ou deixaram alguma brecha para o fato ocorrer, sentindo-se assim ‘sujas’ e ‘erradas’”.

É justamente esse pensamento de ter colaborado para que o ato acontecesse que faz com que as vítimas não denunciem ou demorem muito a conseguir falar com alguém. Nas próprias palavras da psicóloga, elas tendem a “alimentar crenças de desvalor”.

Nesse momento de desequilíbrio, ela ainda terá que lidar com uma sequência de emoções negativas que geram uma paralisia em que só se consegue pensar nos julgamentos feitos. “A desordem pessoal provocada é capaz de fazer com que a vítima questione se deve ou não falar sobre o ocorrido, além de ficar muito preocupada com sua reputação diante dos aspectos profissionais, afetivos, familiares e sociais e acreditar que nunca mais conseguirá superar o trauma provocado.”, acrescenta.

Como fica a vítima?

Normalmente, o assediador é um homem mais velho que está numa posição mais elevada – seja na hierarquia profissional, social ou econômica. Esses fatores contribuem para que as mulheres se sintam coagidas a não falar sobre a situação.

Há sempre alguém, homem ou mulher, que dirá “é só uma brincadeira”, “seja mais agradável com ele. É o seu chefe” e outras frases do tipo. Muitas vezes, as mulheres têm que encontrar forças apenas em si mesmas para lidar com o assediador e com os outros à volta que consideram essa conduta invasiva normal.

“A vítima se sente desamparada, acreditando que será rejeitada, seja por amigos, familiares ou o próprio parceiro. Sua autoestima fica extremamente abalada e geralmente acredita que as pessoas a sua volta não vão acreditar no que ocorreu”, conta Ariane. “O misto de sentimentos é demasiado intenso, tanto com relação ao assédio, quanto às pessoas em torno da vítima. Um abuso é algo tão invasivo, tão agressivo, que sofrê-lo desorganiza emocionalmente a vítima”.

O que fazer para sair do fundo do poço

Afinal, há um caminho para superar o trauma vivido depois de um abuso sexual? A professora e psicóloga Ariane Toubia nos diz que sim, embora a maioria das vítimas desenvolvam transtorno de estresse pós traumático (TEPT), depressão, ansiedade ou passem a abusar de álcool ou outras drogas.

“A agressão à integridade física e emocional da vítima desencadeia um trauma difícil de ser superado. O apoio de familiares, amigos e parceiros, além de um apoio psicológico (e psiquiátrico em alguns casos), torna-se fundamental para que a vítima consiga lidar com o trauma e recobrar suas atividades sociais normalmente”, explica ela. “É possível que a pessoa ainda se lembre do fato, pois a permanência do transtorno pode ser duradoura, mas com uma boa rede de apoio, a vítima pode desenvolver a  resiliência necessária para que sua qualidade de vida não seja afetada tão negativamente.”

Recado final

A figurinista Su Tonani, assim como as atrizes de Hollywood, se abriram para falar sobre os casos sofridos quando se sentiram prontas, mas não há como negar a atitude heróica desse feito. Para muitas delas é tarde demais para denunciar e receber, legalmente, os danos morais ou um pedido de desculpas que seja.

Elas fizeram e fazem isso pelas milhões de outras mulheres que podem estar passando por situações parecidas ou piores e que merecem e devem ser alertadas. Merecem saber que a vítima não tem culpa, que ela não deve se calar e que lutar pela punição dos assediadores e estupradores é preciso.

Isabelle Francine

Isabelle Francine

Vivendo o sonho de ser jornalista, sempre acreditei nas palavras como força transformadora do mundo. O objetivo será, a todo momento, entregar-lhe o melhor de mim, do que sinto e do que aprendo em forma de texto.
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