“Se o mundo sempre lhe foi gentil, parabéns pela sorte de não ser regra”, escreve Mhel Marrer no Dia da Consciência Negra

Mhel Marrer fala sobre como o casamento com Brunno mudou sua percepção em relação ao racismo e convida seus seguidores a reflexão.

Na última segunda-feira, 20, a humorista e roteirista brasileira Mhel Marrer deu a capa a tapa com uma publicação em sua Página do Facebook. Em nome da Consciência Negra, escreveu como a convivência com o marido, Brunno, a fez perceber que o racismo existe e que, nas palavras dela, “ter consciência disso não é vitimismo, nem pagar de superior”.

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Diante da delicadeza contida nas palavras dela, 30 mil pessoas reagiram positivamente à publicação e outras 10 mil compartilharam o conteúdo. Muitas mulheres casadas com homens negros se identificaram com o desabafo de Mhel na rede.

Leia a publicação completa:

“Eu nunca soube o que é ser negro até casar com um homem negro e… continuar sem saber o que é ser negro. Mas a convivência com o Brunno fez eu ter uma vaga ideia.

Não sei o que é ser negro, mas sei que meu carro agora é parado pela polícia muito mais vezes que antes.

Sei que tenho que dizer “ele está comigo” nos lugares muito mais vezes que antes.

Sei que meu marido se arrumar tanto pra sair tem pouco a ver com vaidade e muito mais a ver com sobrevivência.

O racismo existe, ter consciência disso não é vitimismo, nem pagar de superior. É apenas um convite pra refletir: e se a gente tratasse todo mundo com o mesmo respeito que a gente sempre tratou, por exemplo, o nosso chefe?

Sei que é horrível ser chamado de racista quando não tivemos intenção, sei que dá trabalho repensar nossas verdades e é muito mais fácil chamar tudo de mimimi. Mas já viu o mimimi que a gente faz quando aparece, uma vez na vida, a notícia de que um negro viu racismo onde não tinha? Nossa, rola textão de branco pra mais de metro!

E já viu como não temos a mesma indignação diante das notícias diárias sobre negros vendo, sofrendo e morrendo pelo racismo que existe, de fato, em todo lugar? Pois é.

Eu, às vezes, sou racista. O Brunno, às vezes, é machista.

Isso não quer dizer que somos pessoas ruins ou boas, monstros ou vítimas, isso só mostra que a gente tá acostumada a reproduzir o que aprendeu como certo. E não precisa abrir um berreiro só porque alguém apontou o racista que há em nós. Não dói nada rever conceitos, se desculpar e tentar mudar pra dar uma evoluída.

O racismo existe, o machismo existe. Brunno e eu, a gente sabe, mas joga com o que tem. Eu sou humorista, o Brunno é ator. Mandamos bem. Mas eu sempre serei humorista na categoria mulher e ele sempre será ator na categoria negro. Isso significa que meu gênero e a cor dele sempre virão à tona nas propostas, nos “elogios”, nas oportunidades. Eu vou ouvir que sou inteligente pra uma mulher, ele vai ouvir que é bonito para um negro. E a gente pode explicar. Ou fazer uma piada. Mas no geral, a gente vai só dar risada e agradecer, porque a nossa vontade de mudar o mundo não é maior que a nossa imensa preguiça.

E segue o baile. Eu sei que piadas machistas são engraçadas pro senso comum e as faço de monte pra ganhar dinheiro. O Brunno sabe que se o teste de ator não especificou que queria atores negros, não é nem pra ele aparecer por lá. E paciência. Temos filhos e contas pra pagar, precisamos escolher nossas batalhas, lutar as que puder e torcer pra que isso mude um dia.

Essa pode não ser a sua vivência, mas é a nossa. É a do Brunno. Se o mundo sempre lhe foi gentil, parabéns pela sorte de não ser regra.

Eu nunca vou saber o que é ser negro. O Brunno nunca saberá o que é ser mulher. E tudo bem, temos um ao outro. Ele leva o carro na oficina pra eu não ser humilhada pelo mecânico de novo. Eu desconto os cheques dele pra ele não ser humilhado pelo segurança do banco de novo. Eu facilito a vida dele quando a polícia para. Ele facilita a minha vida quando estamos numa rua deserta.

Porque ele é homem e eu sou branca. E pela união dos privilégios, nós somos o incrível HOMEM BRANCO. 😂

#DiadaConsciênciaNegra
Mhel Marrer

 

Vitoria Avancini

Vitoria Avancini

Aspirante a jornalista e serelepe por opção, a palavra sempre foi minha matéria prima.Em meus textos, singelas observações de um universo cósmico e inspirador, além de perspectivas a respeito do que as pessoas sentem. Deixar fluir a imaginação e buscar o grande trabalho da empatia para que a linguagem ganhe novos contornos é a meta.
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