PRA REFLETIR: Era uma vez uma princesa, um negro e um homossexual

Recentemente três assuntos envolvendo crianças e adolescentes viraram polêmica na web. Longe de julgar essas atitudes como certas ou erradas, o vitimismo, presente nos três casos, reforça a polarização e o discurso de ódio, o que se torna um perigo para quem busca viver numa sociedade de respeito às diferenças, e ainda levanta a seguinte questão: quais valores estamos passando para nossos filhos? POR Cristina Magnani COLABORAÇÃO Valéria Cristina A. Lisboa FOTOS Reprodução

Repense o Elogio

 

#CASO1 Repense o Elogio, Avon e ONU, outubro 2017

Em outubro, a marca de cosméticos feminina Avon, juntamente com a ONU, lançou o documentário “Repense o Elogio”. O objetivo? Debater como o uso cotidiano de adjetivos para as meninas, como princesa, linda, fofa e delicada reforça estereótipos de gênero, assim como pode “camuflar” atitudes consideradas machistas e uma possível forma de subjugar as mulheres. No vídeo, que teve milhares de comentários negativos e alto índice de rejeição dos internautas, algumas adolescentes, entre cantoras e youtubers, contam como se sentem muitas vezes ofendidas quando são chamadas de princesas, o que causou o maior furor na internet e deixou a dúvida no ar: não podemos mais chamar nossas filhas de princesas, como se uma princesa não pudesse ser forte, corajosa e inteligente como Merida, Fiona e Bela, por exemplo?

 

BE: QUAL É O PROBLEMA OBJETIVO EM SER UMA PRINCESA NOS DIAS ATUAIS?

VALÉRIA: De acordo com os acontecimentos que envolvem problemáticas voltadas à vida em sociedade, que incluem a diversidade e a necessidade de uma maior equidade entre homens e mulheres, associados aos movimentos atuais, em que se observam grupos voltados para defender determinadas ideias baseadas em um fundamentalismo mais conservador, outros grupos ou segmentos da sociedade voltados a um fundamentalismo mais progressista e outros, ainda, mais anarquistas e assim por diante, podemos dizer que estamos vivendo um cenário de “guerra” cultural no que se refere a uma “identidade” de valores, conceitos e preconceitos que vivemos no Brasil hoje. Essa crise perpassa desde os questionamentos do que é certo, belo, estético, moral e condicional. A prática do rouba, mas faz, por exemplo – dos Malufistas de plantão – era considerada um valor cultural que naturalizava a corrupção como forma de gerenciamento/gestão de uma sociedade – assim como um certo “status” em votar em alguém tão populista, que mantinha um ideal social desejável, mesmo que isso custasse dinheiro dos cofre públicos, mas também que trazia benéficos, como melhoras de acessos – pois ele construía muitas pontes e viadutos – garantindo assim um possível bem estar de um grupo que dessas benfeitorias se beneficiavam. Hoje, com as mudanças nesse campo, colocando em xeque a corrupção e os corruptores, sendo as mesmas motivos de questionamento e de desconforto para a sociedade, sai de cena um conceito inconscientemente objetivado não só nas práticas administrativas do país, mas também nas relações das pessoas como um todo: o famoso jeitinho brasileiro, a malandragem e a possibilidade de tirar vantagem em tudo, permitindo, assim, o questionamento dessa prática e a necessidade da construção de um novo padrão social que de certa forma objetive e legitime novas práticas para uma melhor vida em sociedade. Isso também ocorre em outros aspectos da vida cotidiana. Embora a Constituição Brasileira seja clara em garantir a igualdade social e abolir qualquer forma de preconceito e exclusão, seja pela raça, classe social, problemas ou deformidades físicas e intelectuais, sexual, de gênero, entre outras, isto não nos garantiu em nada que as pessoas não fossem estigmatizadas e discriminadas: em relação à violência contra as mulheres no Brasil, estudam mostram que uma em cada três mulheres sofreram algum tipo de violência só no último ano – em média 503 mulheres são agredidas a cada hora, denotando que embora exista um Constituição que proíba tal ato, a violência ainda persiste e constitui uma forma naturalizada, para muitos homens, de se relacionar com as mulheres, além de histórias de violência contra  homossexuais e transgêneros. Somente nos quatro primeiros meses deste ano, o Brasil teve um aumento de 20% nas agressões contra pessoas LGBT, e só no ano passado foram 343 mortes nesse grupo, além de outras formas de violência.

Então, fica claro compreender a intensidade de apoio à propaganda que, de certa forma, “abole” certos comportamentos que facilmente são associados a padrões culturais e comportamentais de muitos homens – que remetem a um passado recente e também atual que insiste em acontecer e se reinventar – de violência contra a mulher, seja física, sexual ou psíquica. Tais propagandas convidam as pessoas para um olhar que questione alguns valores/padrões culturais predominantes que geralmente trazem associados um ranço de dor, sofrimento e marginalização das mulheres. Por isso a repulsa por qualquer forma de expressão que possa sugerir a inferiorização da mulher, seja insinuando sua fragilidade, falta de inteligência e necessidade de subordinação a um outro – homem – mais forte que a protegerá.

Mas como falei anteriormente, estamos em uma crise de identidade cultural e, com isso, surgem os extremos e os medos associados disfarçados de preocupação, normas de boa ou má conduta e assim por diante. Associados a isto, surgem os possíveis “heróis” apegados a ideias e possíveis fundamentalismos que podem ser mais destrutivos do que agregadores pra a nossa sociedade, produzindo, assim, mais violência, segregação e sofrimento para a sociedade.  Os extremos e a polarização das ideias – momento este tão intenso em nosso país – impedem que possamos compreender questões delicadas como um todo, perdendo a pessoa e negando a necessidade humana e singular de cada um. Entre outras palavras, quando nos apegamos a uma ideia e negamos o resto, podemos ficar alienados e até mesmo fascistas, gerando, assim, grandes problemas e conflitos sociais. A história nos mostra isto, desde a Santa Inquisição, as Guerras Mundiais, as disputas religiosas no Oriente Médio e, mais próximo de nós, as agressões a pequenos grupos, minorias e determinados segmentos da sociedade.

 

BE: SEGUNDO LARS VON TRIER, EM NINFOMANÍACA II, “TODA VEZ QUE UMA PALAVRA SE TORNA PROIBIDA VOCÊ RETIRA UMA PEDRA DOS ALICERCES DEMOCRÁTICOS. A SOCIEDADE DEMONSTRA SUA INCOMPETÊNCIA DIANTE DE UM PROBLEMA CONCRETO REMOVENDO PALAVRAS DA LINGUAGEM. POLITICAMENTE CORRETO É UMA PREOCUPAÇÃO DEMOCRÁTICA COM AS MINORIAS”. ESTARIA, ENTÃO, A PALAVRA PRINCESA GANHANDO O MESMO SIGNIFICADO PEJORATIVO E INDESEJÁVEL DE PRETO, POR EXEMPLO?

VALÉRIA: Sim e não. Depende de muitas variáveis – depende do momento e do personagem ou ator/ atriz que se apropria de alguma atitude ou forma de aproximação com o seu objeto/ público. De certa forma, quando se fala que a repressão impede que as pessoas possam ser livres e que ações aparentemente para garantir alguns direitos e bons costumes e convivência social podem vir a ser, na verdade, uma forma de repressão e controle social, sim. Nesse sentido, o uso pejorativo de palavras como princesa, pode se traduzir – dependendo de quem faz o elogio – numa forma de subjugar, desqualificar, controlar e prejudicar as mulheres aqui no caso. Parte de um fundamentalismo machista, que tem por finalidade controlar um grupo/ mulheres. Desta forma, quando se incentiva atitudes machistas, por exemplo, você perde a possiblidade de compreender alguns aspectos que podem despertar nos homens e mulheres sentimentos, percepções, medos, fantasias e construções socioculturais que fazem com que homens precisem estar no “comando” e o porque de algumas mulheres ainda sofrerem violência e entenderem como natural, e assim por diante. Portanto, impedir a discussão saudável de alguns comportamentos ou movimentos considerados iatrogênicos, assim como a criação de leis que impeçam questionamentos e diálogos que possam incluir a necessidade singular de cada um, o respeito, a tolerância e a convivência mais harmoniosa, principalmente incluindo alguns grupos minoritários, assim como os negros e as mulheres por exemplo, é de fato matar a democracia e uma forma autocrática e autoritária de resolução de conflitos na humanidade – o que também faz muitas vítimas. Um exemplo disso se dá na discussão da proibição do aborto. Bom, mas vamos pensar, se eu particularmente nunca tive a intenção de fazer um aborto e não acho que seja saudável por uma série de concepções, isso não me dá o direito, por exemplo, de legitimar que uma criança que foi estuprada tenha que necessariamente partilhar das minhas concepções, negando, assim, o contexto, as limitações biológicas no que se refere ao coro físico para conseguir gerar uma criança, assim como os traumas decorrentes do abuso. Parece simples, mas só quem passa por situações com essa intensidade pode de fato compreender o impasse que é conseguir ter ou não ter um bebê proveniente de uma agressão. E é esta singularidade que perdemos quando nos fechamos para o diálogo baseados somente nos nosso ponto de vista.

Quando o elogio parte de um momento de troca entre mãe e filha ou pai e filha, mas com o intuito de (re)afirmar o afeto, a construção de uma estima positiva de beleza como um todo, pois princesas são belas/ fortes/ decididas e entre outras significações positivas, está valendo. O que vamos lapidando com o tempo é saber diferenciar um elogio de fato com uma atitude machista e dominante arraigada de preconceitos, podendo, assim, recusar o “presente”, no caso, o elogio.

 

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Thais Araujo

#CASO2 “Porque no Brasil, a cor do meu filho é a cor com que faz com que as pessoas mudem de calçada, escondam suas bolsas e blindem seus carros”, Thaís Araújo, São Paulo, agosto de 2017

O vídeo em questão foi gravado em agosto, no TEDX São Paulo, mas só foi divulgado na semana de comemoração ao dia da consciência negra, e contou com a atriz global Thaís Araújo para palestrar durante 10 minutos sobre “Como criar crianças doces num país ácido”. Mãe de João Vicente, de 6 anos, e de Maria Antônia, 2 anos, corajosamente ela confessou que existe, sim, diferença entre criar meninos e meninas. Que teme pelo preconceito que eles poderão vir a enfrentar por conta da cor da pele e que se esforça para não perder a fé em criar crianças que acreditem que pluraridade e diversidade são riquezas num país que é tão diverso quanto desigual. Ao tocar num dos mais latentes tabus em nossa sociedade, Thaís reacende a velha discussão sobre negros e brancos como uma raça contra a outra. O que para o ator Morgan Freeman trata-se de algo ridículo, conforme declarou em uma entrevista: “Como vamos acabar com o racismo? Parando de falar sobre isso”.

 

BE: POR QUE A DECLARAÇÃO DELA FOI TÃO CRITICADA? PARAR DE FALAR SOBRE RACISMO PODERIA SER, ENTÃO, A SOLUÇÃO?

VALÉRIA: Porque, infelizmente, ainda somos racistas, sim. E isto é um dado da realidade que incomoda, principalmente, os racistas disfarçados de pessoas do “bem”. Se não fossemos uma sociedade racista, existiriam mais negros nas universidades e não precisaríamos criar sistemas de cotas para garantir pelo menos que uma minoria consiga estudar. Teríamos menos negros nas periferias, nos presídios e as abordagens policiais seriam iguais entre negros e brancos. Não precisaríamos do Dia da Consciência Negra para lembrar à sociedade que temos uma dívida com os negros e ainda continuamos agredindo-os, sim, do ponto de vista social. Se me perguntarem por que não existe dia do branco, posso dizer: “porque temos muitos direitos bem definidos e não precisamos brigar por eles”. Temos que mudar alguns padrões sociais e culturais e isso precisa ser discutido e será conflituoso até aceitarmos e acomodarmos a inclusão de todos na sociedade de forma respeitosa e inclusiva, e não marginalizada como é hoje. Isso não é fácil, mas é necessário. Se você observar o teor de algumas críticas, fica a ideia de uma incoerência dos questionamentos dela como “o que ela reclama?” “É rica e bem sucedida”, como se isso fosse mais do que alguém como ela – negra – já conseguira alcançar, mostrando, assim, o preconceito velado nos discursos.

DNA PRA REFLETIR

 

 

 

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#CASO3 HAPPY BIRTHDAY, PABLLO

E o mais recente vídeo do Youtube – já retirado do ar – que chocou os brasileiros é o do casal de namorados homossexuais, de 12 e 14 anos, comemorando o aniversário do mais novo com o aval da família, com direito a bolo de seu ídolo, Pabllo Vittar, exibição de beijos apaixonados e uma versão nada convencional – e bem erotizada – do “Parabéns a Você”.

BE: O QUE EXATAMENTE CAUSOU TANTA REPULSA POR ESSE VÍDEO, UMA VEZ QUE O RESPEITO ÀS OPÇÕES SEXUAIS É DIREITO CONSTITUCIONAL GARANTIDO DE TODO CIDADÃO?

VALÉRIA: Como já comentamos nos casos anteriores, esses movimentos acabam acontecendo como forma de tentar mudar alguns padrões culturais e dar voz à uma minoria, porém de forma muito polarizada e turbulenta. Em relação ao vídeo, ele choca pela dificuldade de se conviver com grupos GLBTS e também pela estimulação e naturalização da sexualidade de forma precoce e sem cuidado com o corpo, podendo favorecer que esses adolescentes se coloquem em situações de risco e de violência pela banalização do corpo, podendo esses acontecimentos virem a ser um fator de risco e vulnerabilidade para sofrer agressões e violência.

De certa forma, essas provocações, assim como a criação de datas comemorativas, a construção de cartilhas como o “Kit Gay”, por exemplo, se tornam uma forma de confrontar alguns mecanismos sociais que transgridem a Constituição Federal, assim como ficar lembrando e reafirmando sempre a  necessidade de garantir os direitos de todos perante a lei. Por outro lado, a fomentação do ódio entre grupos que defendem valores, ideias e conceitos diferentes, acaba fortalecendo ações mais ostensivas e provocativas, assim como estimulando as pessoas a terem ações extremas e de ódio pela dificuldade de interlocução e diálogo entre os grupos com ideias divergentes para a construção de formas de agregar as pessoas e respeitar a diversidade existente em nossa sociedade, encontrando pontos de equilíbrio e respeito.

O medo, a necessidade de controlar o outro e a polarização de ideias, além da filiação a alguns conceitos fundamentalistas, quer sejam tradicionais, religiosos, progressistas, socialistas ou qualquer outros, de forma inquestionável e rígida,  podem fazer muitas vítimas em uma sociedade .

 

VALÉRIA CRISTINA ANTUNES LISBOA possui graduação em Psicologia pela Universidade Metodista de Piracicaba (2000), Pós Graduação, Mestrado e Doutorado em Ciências Aplicadas à Pediatria pela Universidade Federal de São Paulo/ Escola Paulista de Medicina. Atualmente é tutora e pesquisadora do Centro de Referência Regional de crack, álcool e outras drogas da UFSCar/SENAD. Tem experiência na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Psicologia Clínica.

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